quarta-feira, 15 de agosto de 2007

SIGNIFICADO DO SOFRIMENTO DA VIDA

Cada um de nós lida com o sofrimento de uma forma diferente. Diante de determinados sofrimentos uns parecem mais forte, mais preparados que outros. Mas, todos nós temos nossos "pontos fracos", uns são fortes diante do sofrimento da perda de um ente querido, mas se desestruturam diante de uma desilusão amorosa.

Enfim, as combinações são as mais diversas possíveis, portanto acredito que esse texto se encaixa para todos nós, em algum momento de nossas vidas, para alguns no momento presente, e a esses eu sugiro uma melhor análise do texto, que se bem compreendido e assimilado é de grande valia.

Então pensemos um pouco sobre o assunto. Garanto que pensá-lo dói bem menos que sentí-lo.

Para melhor expressar-se, o amor irrompe de for­mas diferentes, convidando à reflexão em torno dos valores existenciais. Muito do significado que se carac­teriza pelo poder - mecanismo dominante da realiza­ção do ego - desaparece, quando o amor não está pre­sente, preenchendo o vazio existencial. Essa ânsia de acumular, de dominar, que atormenta enquanto com­praz, torna-se uma projeção da insegurança íntima do ser que se mascara de força, escondendo a fragilidade pessoal, em mecanismos escapistas injustificáveis que mais postergam e dificultam a auto-realização.

A perda da tradição é como um puxar do tapete no qual se apoiam os pés de barro do indivíduo que se acreditava como o rei da criação e, subitamente se en­contra destituído da força de dominação, ante o desa­parecimento de alguns instintos básicos, que vêm sen­do substituídos pela razão. O discernimento que con­quista é portador de mais vigor do que a brutalidade dos automatismos instintivos, mas somente, a pouco e pouco, é que o inconsciente assimilará essa realidade, que partirá da consciência para os mais recônditos re­folhos da psique.

Nesta transformação - a metamorfose que se ope­ra do rastejar no primarismo para a ascese do raciocí­nio - o sofrimento se manifesta, oferecendo um novo tipo de significado e de propósito para a vida.

Impossível de ser evitado, torna-se imperioso ser compreendido e aceito, porqüanto o seu aguilhão pro­duz efeitos correspondentes à forma porque se deva aceitá-lo.

Quando explode, a rebeldia torna-se uma sensa­ção asselvajada, dilaceradora, que mortifica sem sub­meter, até o momento em que, racionalmente aceito, faz-se instrumento de purificação, estímulo para o progres­so, recurso de transformação interior.

O desabrochar da flor, rompendo o claustro onde se ocultam o perfume, o pólen, a vida, é uma forma de despedaçamento, que ocorre, no entanto, no momento próprio para a harmonia, preservando a estrutura e o conteúdo, a fim de repetir a espécie.

O parto que propicia vida é também doloroso pro­cesso que faculta dilaceração.

O sofrimento, portanto, seja ele qual for, demons­tra a transitoriedade de tudo e a respectiva fragilidade de todos os seres e de todas as coisas que os cercam, alterando as expressões existenciais, aprimorando-as e ampliando-lhes as resistências, os valores que se con­solidam. Na sua primeira faceta demonstra que tudo passa, inclusive, a sua presença dominante, que cede lugar a outras expressões emocionais, nada perduran­do indefinidamente. Na outra vertente, a aquisição da resistência somente é possível mediante o choque, a experiência pela ação.

O ser psicológico sabe dessa realidade, O Self iden­tifica-a, porém o ego a escamoteia, fiel ao atavismo an­cestral dos seus instintos básicos.

O sofrimento constitui, desse modo, desafio evo­lutivo que faz parte da vida, assim como a anomalia da ostra produzindo a pérola. Aceitá-lo com resignação dinâmica, através de análise lúcida, e bem direcioná-lo é proporcionar-se um sentido existencial estimulante, responsável por mais crescimento interior e maior va­lorização lógica de si mesmo, sem narcisismo nem uto­pias.

Todos os indivíduos, uma ou mais vezes, são con­vidados ao enfrentamento, sem enfermidades graves ou irreversíveis, com dramas familiares inabordáveis, com situações pessoais quase insuportáveis, defrontan­do o sofrimento.

A reação irracional contra a ocorrência piora-a, alu­cina ou entorpece os centros da razão, enquanto que a compreensão natural, a aceitação tranqüila, propiciam a oportunidade de conseguir o valor supremo de ofe­recer-se para a conquista do sentimento mais profun­do da existência.

A morte, a enfermidade, os desastres econômicos, os dramas morais, os insucessos afetuosos, a solidão e tantas outras ocorrências perturbadoras, porque inevi­táveis, produzindo sofrimento, devem ser recebidas com disposição ativa de experienciá-las. Para alguns desses acontecimentos palavra alguma pode diluir-lhe os efeitos. Somente a interação moral, a confiança em Deus e em si mesmo para a convivência feliz com os seus resultados.

Esta disposição nasce da maturidade psicológica, do equilíbrio entre compreender, aceitar e vivenciar. Aqueles que não os suportam, entregando-se a lamen­tações e silícios íntimos, permanecem em estado de in­fância psicológica, sentindo a falta da mãe super prote­tora que os aliviava de tudo, que tudo suportava em vãs tentativas de impedir-lhes a experiência de desenvolvimento evolutivo.

A aceitação, porém, do sofrimento como significado existencial e propósito de vida, não se torna uma cruz masoquista, mas se transforma em asas de liberta­ção do cárcere material para a conquista da plenitude do ser.



"A impossibilidade é uma condição momentânea, e quem sabe disto não desiste. E nenhuma outra postura é tão instigadora de criatividade e intuição quanto o não desistir. O simples fato de permanecer no jogo abre opções que, fora dele, ao se jogar a toalha, obviamente não existem".

1 comentário:

Hugo Jorge disse...

Gostei de visitar este blog.